
Introdução
/ 01 — 2022
Performance, instalação & fotografia
Performance · instalação · fotografia
Uma cartografia gravada pela repetição da violência estrutural — onde o BDSM opera como máquina simbólica e o corpo se torna um mapa sensível de um mundo fraturado.
© 2022
Texto da artista
Habitamos uma cartografia gravada pela repetição da violência estrutural, violência que molda a carne, a subjetividade e a geografia. O corpo queer e dissidente, racializado, desviante, patologizado, torna-se um palimpsesto onde o poder inscreve suas normas e, simultaneamente, onde se reescrevem insurgências.
Um palco onde os protocolos da dor e o ruído da opressão são estetizados como denúncia e gesto político. Nesse terreno de colapso, o BDSM opera como uma máquina simbólica: uma linguagem performativa, uma dramatização do consentimento e do poder, capaz de distorcer as linhas entre dominação e desejo, violência e cuidado, sistema e falha.
Ao mobilizar o BDSM como estética crítica, este projeto busca mapear as topografias da violência, onde o corpo é marcado, exposto, deslocado, mas também onde resiste, reage e se reconstrói. As amarras tornam-se diagramas de controle biopolítico, mas também coreografias de uma liberdade possível. A dor consensual se contrapõe à dor imposta.
Esta é uma reflexão expandida sobre os mecanismos de normalização, vigilância e exclusão impostos aos corpos que não se conformam às normas, e sobre como esses corpos, ao se transformarem em arte, linguagem, ritual e ficção, sabotam os próprios sistemas que buscam discipliná-los.
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Quando eu tinha cerca de cinco anos, comecei a ter visões recorrentes de uma família usando máscaras de gás. Essa imagem aparecia especificamente sempre que eu olhava pelo corredor em direção à casa da minha família. A visão da família de máscaras de gás parecia sempre coincidir com momentos em que coisas ruins aconteciam na minha vida.
Aos 23 anos, decidi transformar essa imagem que me assombrava em uma fotografia encenada. Depois de encontrar os modelos para o ensaio, não tive dúvida de que lhes daria um final feliz. A virada aconteceu quando criei e fotografei A Menina da Máscara de Gás (2012). Ao fotografar a menina usando a máscara de gás, tomei sua presença emprestada para me ajudar a elaborar e purgar o peso emocional daquelas visões.
Acredito que transformar minha visão em um objeto — neste caso, uma fotografia — me permitiu reelaborar minha experiência passada e a dor ligada a ela. Eloa, a menina que posou para a imagem, tornou-se um espelho de mim mesma: ela tinha aproximadamente a mesma idade que eu tinha quando as visões começaram.




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Trata-se da questão de gênero na arte (no mercado e na história da arte), especificamente da predominância de homens cisgênero. A reflexão se baseia, por exemplo, na obra “As vantagens de ser uma artista mulher” (1988/2017), das Guerrilla Girls, exposta no MASP em 2017, que aborda o contraste entre o pequeno número de artistas mulheres, não binários, trans e queer e o grande número de corpos femininos nus nos acervos dos museus.
Na performance, o ato constante e repetitivo evoca um ato sexual em sua forma falocêntrica, simbolizando a persistente dominação cultural dos homens cisgênero no mundo da arte. A tela representa o feminino, o queer e o não binário; sua brancura sugere uma tentativa de apagamento dessas identidades. O ato de rasgar a tela torna-se um gesto de violação contínua.






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“Corpo Estranho” foi uma performance realizada em 2012 sobre sexualidade — especificamente abuso sexual —, teoria queer e o apagamento do corpo nas esferas social e cultural, fazendo referência a pessoas que se prostituem nas ruas e a profissionais do sexo por suas experiências pessoais nesses dois meios.
O nome “Corpo Estranho” foi inspirado no livro “Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer”, de Guacira Lopes Louro.


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“Gula” aborda o fetichismo da mercadoria a partir da crítica de Karl Marx ao fenômeno social e psicológico pelo qual as mercadorias parecem ter uma vontade independente de seus produtores. A estética BDSM alude a dois produtos (menina e melancia) e às suas medidas, propriedades norteadoras que afetam sua utilidade e seus valores, e a um terceiro objeto que nomeia a relação social entre o conjunto: a fome.
Consumindo a nós mesmos, abortando a nós mesmos e engolindo as ideologias que o sistema nos impõe, desenvolvemos um dos pecados capitais, Gula, ao consumir algo de que precisamos enquanto desempenhamos um papel em um teatro social. A foto foi inspirada em Saudek e a performer é Miss Tibia. Gula participou de exposições como “Trabalhadores do Cú”, no Espaço Cultural Maus Hábitos, em Portugal (2016), e Scope Art Fair, em Miami (2014), e integra o acervo permanente do Museu de Arte Contemporânea de Bogotá.


