
Introdução
/ 01 — 2023—
Pesquisa, fotografia,
sound & installation
Memory, light & sound
O projeto de pesquisa experimental A Camara Obscura - Decodificação e Reprocessamento de Memórias integra uma pesquisa transdisciplinar que envolve fotografia, ruído, física, semiótica, neurociência e psicologia, dedicada ao resgate de memórias por meio da fotografia e de sua decodificação.
Pesquisa
Os métodos de imagem fotográfica – e a própria imagem – desempenham um papel importante nas aplicações terapêuticas voltadas ao trauma, como as empregadas na técnica EMDR (Dessensibilização e reprocessamento por meio de movimentos oculares), nas técnicas de Psicodrama ou no tratamento de transtornos cognitivos e neurológicos de pacientes, como aqueles com psicose, cujos surtos sugerem relações de causalidade e associação entre lesões cerebrais e quadros crônicos que envolvem perda de memória, independentemente da neuroplasticidade do paciente, contemplando, assim, casos mais graves, como a doença de Alzheimer.
Ao analisar a temporalidade da memória por meio da fotografia como método de documentação das lembranças e, consequentemente, como ato de dessensibilização — pois a memória, mesmo documentada, pode ser subjetiva e questionável —, é possível considerar a decodificação da fotografia como uma projeção da linearidade lógico-matemática da comunicação primitiva. Trata-se de uma evolução do ruído emitido na comunicação dos primatas, que passa ao gesto (a performance - em sua caracterização na arte) e, consequentemente, à imagem, uma evolução técnica ou a codificação da imagem.
Este projeto propõe experimentos com processos de dessensibilização por meio de fotografias e instalações que sugerem a recuperação de memórias. Essas instalações partem do pressuposto de que a comunicação é intuitiva e de que, ao retornarmos ao primitivismo da comunicação, a partir dos gestos (performance) e dos ruídos/símbolos (decodificação da imagem fotográfica documental), podemos chegar a princípios básicos da memória humana. Isso possibilita um diálogo mais simples no âmbito das patologias e dos transtornos associados à perda de memória. Assim, o desenvolvimento desta pesquisa constitui, sobretudo, uma alternativa complementar, utilizando a fotografia em tratamentos psiquiátricos, psicológicos e neurológicos.



Método
Esta proposta busca investigar e traduzir artisticamente a experiência da perda de memória por meio de entrevistas com pessoas que perderam parcialmente suas memórias, assim como com amigos ou familiares de pessoas que vivenciaram a perda total de memória. O objetivo é narrar e dar forma visual às histórias relacionadas a essas perdas por meio da fotografia, do som e da instalação imersiva. Os participantes serão divididos em dois grupos específicos:
Essas imagens serão submetidas a um processo de decodificação: o conteúdo fotográfico será decomposto em elementos visuais simbólicos, substituindo a fotografia tradicional por representações abstratas. Além disso, cada imagem decodificada será traduzida em estímulos sonoros por meio de ruídos gerados por software a partir da estrutura visual da própria imagem.
Esta pesquisa culminará em uma instalação imersiva intitulada A Caixa Preta, construída em Realidade Virtual, simulando uma “Câmara Escura”. Os visitantes poderão interagir com cada fotografia flutuante em um ambiente 3D inteiramente escuro. Cada imagem será acompanhada por paisagens sonoras sintetizadas e breves textos narrativos que relatam as histórias pessoais de perda de memória por trás das imagens.
A instalação também incluirá uma “Câmara Escura” analógica equipada com um sistema analógico de reverberação de placa. Uma superfície metálica no interior da câmara receberá captadores magnéticos para captar reações acústicas sutis geradas pela incidência de luz. Essas tênues ressonâncias — causadas pela interação da luz com o metal — serão amplificadas e transformadas em som audível. A iluminação será controlada pelo usuário, permitindo ao público manipular a intensidade, a direção, a nitidez e a temperatura de cor, modulando assim os resultados sonoros em tempo real.



A Câmara Escura principal terá dimensões de 1x1x1 metros. A luz projetada sobre um sistema analógico de reverberação de placa produzirá modulações nas ondas sonoras resultantes. A estrutura incluirá um modulador sonoro que reage em tempo real às variações de luz. Para a primeira Câmara Escura, será construído um suporte específico, que exigirá um espaço de aproximadamente 3x3 metros.
Os controladores de modulação da luz também serão programados para controlar conjuntos de frequências sonoras de ondas senoidais emitidas por alto-falantes separados. Essas frequências serão organizadas para gerar batimentos binaurais, buscando estimular mudanças nos padrões de ondas cerebrais induzidas pela audição.
Abaixo, o primeiro protótipo



Será desenvolvido um site imersivo para que usuários que não possam comparecer à exposição física vivenciem o projeto remotamente. A plataforma oferecerá uma experiência audiovisual interativa que combina modulação sonora e arte cinética, partindo de materiais fotográficos e incorporando elementos de ilusão de óptica fisiológica.
Inicialmente, o site coletará dados de interação dos usuários. Posteriormente, esses dados ativarão Memoriais de Realidade Mista instalados em espaços públicos selecionados em cidades brasileiras, acionando luzes e a emissão de frequências sonoras específicas sempre que os componentes digitais e físicos se alinharem.
Será criada uma série de instalações de Realidade Mista concebidas especificamente para seus locais, como estruturas de “Caixa-Preta” em espaços urbanos. Esses memoriais efêmeros servirão como portais para a reativação da memória por meio do som e da luz. Futuramente, essas estruturas virtuais serão transformadas em monumentos físicos — espaços táteis e sonoros de rememoração coletiva.