
Introdução
/ 01 — 2025
Pesquisa · dados Luz e som Em desenvolvimento desde 2025
Allostatic Load · Observatory · Mandala of the Unconscious · Sirene · Nebulae · Catalysing Affect · Mapping · Street
Uma investigação sobre o sofrimento, o poder e as condições de existência. O que chamamos de loucura? Onde termina o indivíduo e começa o mundo que o adoece?
© 2025
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O que é a loucura? é uma investigação artística, científica e tecnológica sobre as relações entre saúde mental, condições de existência e estruturas de poder. Parte da hipótese de que o sofrimento psíquico não pode ser compreendido apenas como fenômeno individual, separado das condições sociais, políticas, econômicas, históricas e ambientais em que a vida acontece.
A experiência humana é atravessada por forças que nem sempre se percebem diretamente: violência, fome, guerra, precariedade, racismo, exclusão, isolamento, mudanças climáticas e insegurança material. Essas condições não organizam só a sociedade. Elas atravessam também os corpos, os sistemas nervosos, os processos de adaptação e as possibilidades de existir.
Ao aproximar dados ambientais e sociais, neurociência, bioquímica, imagem, luz e som, o projeto busca tornar perceptíveis algumas dessas relações. A ciência dá instrumentos para observar o que escapa à experiência imediata; a arte cria outras formas de experimentar, interpretar e questionar esses fenômenos.
A pesquisa se volta também à história da psiquiatria e às práticas de confinamento que transformaram diferenças, comportamentos e formas de sofrimento em justificativa para a exclusão. Em diálogo com a luta antimanicomial, a Reforma Psiquiátrica brasileira e o pensamento decolonial, o projeto pergunta quem tem o poder de definir a normalidade, quais vidas são consideradas legítimas e quais condições históricas tornam certas populações mais vulneráveis ao sofrimento e à violência institucional.
A questão deixa de ser apenas o que acontece dentro de uma pessoa e passa a incluir o que acontece ao redor dela, sobre ela e através dela.
Nessa perspectiva, a loucura não aparece como categoria universal, fixa e independente do contexto, mas como campo de disputa entre experiência subjetiva, conhecimento científico, convenções sociais e relações de poder. Isso não significa reduzir os transtornos mentais às condições sociais, e sim investigar como fatores biológicos, ambientais e históricos se articulam na produção do sofrimento.
O projeto se desdobra em sistemas de visualização de dados, composições generativas, instalações de luz e som, mandalas, objetos e intervenções no espaço público. Essas obras transformam informação em experiência sensorial e criam correspondências entre escalas: do molecular ao corporal, do individual ao coletivo, do território ao planeta.
Ao levar a investigação do espaço clínico para a galeria e para a rua, o projeto desloca também a própria pergunta. A cidade deixa de ser só o cenário onde a vida acontece e passa a ser parte ativa das condições que a constituem.
O que é a loucura? O que chamamos de normalidade? E o que acontece quando examinamos não só quem adoece, mas também o mundo em que essas pessoas são obrigadas a viver?
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O projeto se organiza em cinco eixos que se conectam, sem virar uma coleção de assuntos independentes.
1. O corpo como território. O corpo não é uma unidade isolada: é um sistema biológico em relação permanente com o ambiente. Estresse, adaptação, metabolismo e sistema nervoso são a entrada para investigar como as condições de existência repercutem na fisiologia. No projeto: o laboratório Carga Alostática, que liga cada fator a mediadores do estresse e do cuidado.
2. A fabricação da normalidade. Quem define o que é normal, patológico ou desviante? A história manicomial, a medicalização e os mecanismos de classificação mostram como o conhecimento sobre saúde mental também é atravessado por interesses institucionais, desigualdades e exclusão. No projeto: a crítica ao manicômio e as Máscaras, em diálogo com Frantz Fanon.
3. A geografia do sofrimento. Territórios diferentes produzem exposições diferentes à violência, à precariedade e aos riscos ambientais. Os dados permitem investigar essas desigualdades sem tratar o sofrimento como falha privada de quem o vive. No projeto: o Observatório, que lê cada acontecimento por lugar, e a Sirene, que muda conforme a cidade onde está.
4. A tradução do invisível. Dados, substâncias, frequências e relações estatísticas viram imagem, luz, som e movimento. A visualização não é só ilustração científica: é linguagem para produzir outras formas de percepção. No projeto: a cimática, a luz da Sirene e a Mandala do Inconsciente, em diálogo com Nise da Silveira.
5. A devolução ao espaço público. Ao sair da galeria e ocupar a cidade, a pesquisa transforma uma questão que parece individual em pergunta coletiva. O espaço público vira lugar de confronto entre experiência, conhecimento e responsabilidade social. No projeto: os vídeos em mapping e as intervenções urbanas, como no Minhocão.
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Por séculos, o manicômio foi o lugar para onde a sociedade mandou quem ela não queria ver. Em História da loucura (1961), Michel Foucault mostra pobres, desempregados e 'loucos' trancados juntos. No Brasil, no Hospital Colônia de Barbacena, pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os anos 1930 e 1980, e cerca de 70% das internadas não tinham diagnóstico de doença mental (Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro, 2013).
A categoria 'louco' serviu para separar quem é pobre, preto, dissidente de gênero, migrante ou quem desobedece. O projeto inverte a pergunta: em vez de 'o que há de errado com essa pessoa?', pergunta 'o que foi feito com ela e onde ela vive?'. Trancar o indivíduo esconde a causa. O projeto se alinha à luta antimanicomial e à Reforma Psiquiátrica brasileira (Lei 10.216/2001).
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Dois psiquiatras da mesma época trabalharam contra o manicômio. No Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, Nise da Silveira estudou as mandalas pintadas pelos pacientes e criou o Museu de Imagens do Inconsciente. As mandalas deste projeto dialogam com esse trabalho: a forma que vem de dentro.
No hospital de Blida, na Argélia, Frantz Fanon mostrou que o colonialismo adoece. Em Pele negra, máscaras brancas (1952), a máscara é a identidade imposta pelo racismo. Aqui, a máscara representa a categoria imposta de fora, e a luz mostra o que de fato pesa sobre cada lugar.
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O que é a loucura? continua Social Hacker (2019), que investiga os protocolos invisíveis da vida social, os códigos, permissões e brechas do pertencimento, por meio de estereogramas, paisagens agrícolas e sistemas vistos de cima.
O projeto mantém esse olhar de cima: cada lugar é lido como um sistema que pode adoecer as pessoas, e o território vira o eixo da geografia do sofrimento. Imagens: estereogramas de Social Hacker, 2019.




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Carga alostática é o desgaste que o corpo acumula ao se adaptar repetidamente ao estresse (McEwen e Stellar, 1993). O laboratório aplica a ideia a lugares. Acompanha 17 lugares e o mundo todo, do Sudão do Sul a Tromsø, com dados abertos de fontes científicas e de organismos internacionais: desastres, calor, ar, conflito, fome, deslocamento, dinheiro e, como contraponto, o cuidado.
Cada fator é ligado às substâncias que o corpo libera diante dele, como cortisol, noradrenalina, ocitocina e GABA. Cada substância tem uma cor fixa, e a massa da molécula vira frequência. O resultado é uma figura viva, uma figura de cimática, uma mandala e um som contínuo para cada lugar.


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Um painel de pesquisa que liga cada acontecimento a quem sofre, quem lucra, o que a ciência mostra e o que ajuda. Tem linha do tempo até 2050, índices de aflição por lugar, pesquisa ao vivo coletada todo dia, efeitos pouco divulgados de remédios psiquiátricos e um mapa em que clicar em qualquer item mostra tudo o que se liga a ele.



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Uma obra pessoal. A pessoa entrega o próprio histórico de buscas, ou escreve palavras, e a obra desenha uma mandala de 19 substâncias em cor, forma e som. Nada sai do navegador. No modo de intenção, a pessoa escreve como quer se sentir, e a mandala vai aos poucos da química atual para a que ela pediu. É uma representação, não um tratamento.
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Um objeto luminoso e sonoro para galeria: uma coluna de luz de 2,70 m em que as cores das substâncias se misturam, e uma mandala de luz no chão que vai mudando com os dados. O som é um acorde contínuo, sem alarme, porque um som de sirene pode gerar gatilhos.
A sala também entra na conta: os dados da cidade, sensores anônimos (CO₂, temperatura, nível de ruído sem gravação, presença) e quem participa pelo QR code, dizendo como chegou e como quer sair. Nenhum celular é identificado e nada é guardado. Imagens: simulação 3D.




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As nebulosas saem do laboratório e viram obras fixas e físicas, escolhidas pela artista: impressão, luz e projeção.
Atlas. Série fixa de 5 a 7 impressões em grande formato ou caixas de luz. Cada imagem leva o nome de um lugar e a data em que foi gerada. Não é atualizada nem vendida em série: é um registro, como as pranchas de um atlas, ligado ao eixo da geografia do sofrimento.
Nebulosa, instalação de luz. A luz atravessa um tanque raso de água ou placas de vidro texturizado ou dicroico e projeta nuvens e filamentos no teto ou na parede. Um alto-falante preso ao tanque toca as frequências das substâncias do lugar, e a água vibra com elas; no vidro, as placas giram devagar. O estímulo também pode vir de quem está na sala: respiração, pulso ou os sensores anônimos de presença e ruído da Sirene. Materiais e medidas serão definidos em protótipo.
Máscaras. A nebulosa projetada sobre as máscaras: a máscara é a categoria imposta de fora, e a luz mostra o que pesa sobre cada lugar.
Mapping. A nebulosa como fundo dos vídeos em mapping, com a pergunta do projeto.
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Ideia que desejo desenvolver. O mapa do cuidado já existe na internet; o Afeto Catalisador é a instalação que nasce dele.
O mapa do cuidado é o avesso da carga: onde as pessoas se seguram. A luz de cada lugar vem da ajuda e da cooperação relatadas no noticiário e das buscas e posts de esperança; fios ligam os lugares onde o cuidado está presente ao mesmo tempo.
Afeto Catalisador é a instalação dele: um recipiente de vidro em forma de útero, com água morna e luz, coberto por uma membrana translúcida, instalado em várias cidades. Quando alguém toca uma membrana, as outras sentem no mesmo ponto: ela vibra de leve, aquece um pouco, acende na cor do lugar de onde veio o toque, e um pulso lento soa. Quem está no site também pode tocar. O nome vem de Nise da Silveira, que chamava de afeto catalisador o vínculo que ajuda a tratar.






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Vídeos de projeção mapeada feitos com as imagens geradas pelos dados (mandalas, cimática, as nebulosas como fundo) e com a pergunta do projeto, para fachadas, empenas de prédios e a própria Sirene. O primeiro estudo mostra a pergunta em letras brancas sobre formas líquidas em azul.
A pergunta sai da galeria e vai para a rua: 'O que é a loucura? O que é a sanidade?', em lugares de passagem de São Paulo como o Minhocão (Elevado Presidente João Goulart), que fecha para carros e vira espaço de lazer à noite e nos fins de semana. Formatos: projeção mapeada nas empenas dos prédios ao longo do elevado, lambe-lambes e faixas com um QR code que leva ao laboratório, e uma versão da Sirene em espaço público. As intervenções dependem de autorização da Prefeitura de São Paulo e dos donos dos imóveis.
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Todos os dados são abertos e públicos, de organismos internacionais, instituições científicas e bases reconhecidas, agregados por lugar. Nenhuma fonte identifica pessoas.
Desastres: GDACS (ONU e Comissão Europeia), USGS. Calor e ar: Open-Meteo, Copernicus CAMS. Conflito e cooperação: GDELT, UCDP (Universidade de Uppsala). Fome, guerra, deslocamento: HDX HAPI (OCHA, ONU) com ACLED, IPC, OIM, ACNUR. Indicadores econômicos: Banco Mundial, FRED. Aflição e esperança: acessos à Wikipedia e posts públicos do Bluesky, só contagens. Ciência: Europe PMC, ClinicalTrials.gov. Remédios: openFDA. Massa das moléculas: PubChem (NIH).
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Toda segunda-feira, o projeto fecha a semana num boletim numerado: uma imagem, uma faixa de som e uma página de dados. A imagem é vendida diretamente pela artista e a faixa sai nas plataformas de streaming; parte da renda vai para instituições que cuidam das causas que a obra mostra, com prestação de contas mensal e pública.
As obras são gratuitas, abertas, sem login, em três línguas e com código aberto.