
Introdução
/ 01 — 2021—
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Sexualidade colonizada é o corpo atravessado por normas que não lhe pertencem. Imposta por epistemologias cristãs, patriarcais e eurocêntricas, ela transforma o desejo em disciplina, a pele em fronteira, o gênero em pris
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Sexualidade colonizada é o corpo atravessado por normas que não lhe pertencem. Imposta por epistemologias cristãs, patriarcais e eurocêntricas, ela transforma o desejo em disciplina, a pele em fronteira, o gênero em prisão. Colonizar a sexualidade é separar o prazer do espírito, o afeto do território, o corpo da história. É apagar cosmologias inteiras nas quais o sexo era ritual, conexão, passagem e força vital. Descolonizar a sexualidade, portanto, não é apenas um ato de resistência
A sexualidade colonizada não é apenas a repressão do desejo individual — é a reconfiguração sistêmica de cosmologias eróticas, afetivas e relacionais inteiras por meio da imposição violenta de normas ocidentais, patriarcais e cristãs. Como define Aníbal Quijano em sua teoria da colonialidade do poder, a colonização não foi apenas um projeto territorial, mas também epistêmico e ontológico. A sexualidade foi um alvo central dessa transformação — um espaço no qual os corpos eram classificados, os desejos eram regulados e as formas de vida eram subjugadas para se enquadrarem em um modelo eurocêntrico de inteligibilidade.

Maria Lugones amplia essa ideia ao introduzir o conceito de colonialidade de gênero, revelando como o colonialismo não apenas impôs hierarquias de raça e classe, mas também introduziu à força um sistema binário de gênero e uma matriz heteronormativa em que diversas expressões de gênero e sexualidades pré-coloniais foram apagadas ou demonizadas. Em muitas cosmovisões indígenas, afrodiaspóricas e ancestrais, a sexualidade não se reduzia à função reprodutiva ou ao controle moral, mas existia como força de conexão, ritual, comunidade e espiritualidade. O projeto colonial rompeu esse vínculo sagrado entre corpo e território, entre sexo e sentido.
Gloria Anzaldúa, em seus escritos sobre as zonas de fronteira, nos lembra que a sexualidade colonizada também emerge como um lugar de fratura interna — um espaço onde identidades híbridas (queer, mestiças, racializadas) são forçadas a lidar com a vergonha, a fragmentação e a invisibilidade tanto na cultura dominante quanto em suas próprias comunidades. Sua obra afirma que reivindicar a sexualidade é também reconfigurar a linguagem, o mito e a carne — uma prática fronteiriça a um só tempo espiritual e política.
Achille Mbembe aponta que a ordem colonial opera por meio da necropolítica — a regulação de quem pode viver e de quem deve morrer. Nesse contexto, a sexualidade de corpos negros, queer, indígenas e trans torna-se um campo de controle estatal, medicalização e hipervisibilidade aliada à descartabilidade. A vida erótica do sujeito colonizado é policiada, exotizada ou apagada — jamais autônoma.
Ochy Curiel, a partir do feminismo afro-caribenho, nos lembra que descolonizar a sexualidade não pode se resumir à mera inclusão liberal de sexualidades "diversas" na ordem colonial. Ao contrário, exige uma ruptura com a lógica do capitalismo racial e do patriarcado, que continua a moldar a intimidade, o desejo, o parentesco e a relacionalidade. Exige desaprender o olhar colonial e recuperar modos de estar em comunhão que não se apoiem na dominação ou na mercantilização.
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